Os 7 Erros Mais Comuns de Quem Começa a Escrever Fantasia

Muitos autores acreditam que a fantasia é o gênero da liberdade total. Ledo engano. A fantasia é o gênero da disciplina interna. Onde a realidade não impõe limites, o autor deve impô-los, ou a história se dissipará no éter. Se você sente que sua narrativa está estagnada ou que seu mundo parece “de papelão”, é provável que você esteja cometendo um destes erros fundamentais de estrutura.

1. O Mundo como Museu (Worldbuilding sem Função)

O erro mais sedutor é acreditar que um mapa detalhado e uma cronologia de três mil anos sustentam um livro. Se o seu mundo é incrível, mas não “fere” os personagens, ele é apenas um cenário estático.

  • A Expansão: O cenário deve ser uma força antagonista ou um catalisador. Se existe um deserto intransponível no seu mapa, ele só importa se o protagonista for forçado a atravessá-lo. A geografia deve ditar a cultura, e a cultura deve ditar o conflito.
  • A Chave: Não construa um mundo para ser contemplado; construa um mundo para ser sobrevivido.

2. O Labirinto da Complexidade Superficial

Há uma diferença abismal entre um mundo complexo e um mundo profundo. Encher as páginas com dezenas de raças exóticas e panteões esquecíveis não gera imersão; gera fadiga.

  • A Expansão: Profundidade nasce da consequência. Se você criou uma raça que não dorme, como isso afeta a arquitetura (existem quartos?), a economia (trabalham 24h?) e a psicologia deles? Menos elementos com mais ramificações valem mais do que um inventário infinito de ideias soltas.
  • A Chave: Explore as implicações extremas de uma única ideia genial antes de saltar para a próxima.

3. O Protagonista Passageiro (A Falta de Agência)

Na fantasia iniciante, é comum vermos o “Escolhido” que apenas reage aos eventos. Alguém lhe entrega uma espada, alguém lhe diz para onde ir, alguém o resgata. Um personagem que não toma decisões difíceis não é um herói; é um turista na própria história.

  • A Expansão: O desejo do personagem é o motor da trama. O que ele quer que é mais importante que a própria vida? O conflito real surge quando o mundo (que você construiu no passo 1) coloca um obstáculo intransponível entre o personagem e seu desejo.
  • A Chave: O herói deve ser a causa dos eventos, não apenas o efeito deles.

4. O “Infodump”: O Assassino do Ritmo

Ninguém abre um romance para ler um manual de instruções. Explicar a economia do reino ou a origem da magia logo nas primeiras páginas é o caminho mais rápido para o abandono do leitor.

  • A Expansão: Informação é uma recompensa, não um fardo. O leitor só quer saber como a magia funciona quando o personagem está prestes a morrer por causa dela. Mostre o efeito, deixe o leitor curioso e só então entregue a causa, em pequenas doses homeopáticas.
  • A Chave: Aplique a técnica do “Iceberg”: mostre a ponta (a ação) e deixe que a massa submersa (o lore) dê peso ao que é visto.

5. Magia sem Imposto (A Ausência de Custos)

Se a magia pode resolver tudo sem cobrar nada, não há tensão. Se o seu mago pode conjurar uma tempestade de fogo e sair para jantar como se nada tivesse acontecido, você destruiu o risco narrativo.

  • A Expansão: O que define um sistema de magia não é o que ele faz, mas o que ele proíbe. Estabeleça limites claros. A magia cansa? Ela corrompe? Ela exige sacrifícios materiais ou morais? Onde a magia falha é onde a história realmente começa.
  • A Chave: Regras geram criatividade; o poder absoluto gera tédio.

6. A Tirania da Inspiração vs. A Necessidade da Estrutura

Muitos escritores de fantasia se orgulham de serem “jardineiros” (escrevem sem planejamento). Porém, em mundos complexos com múltiplos arcos, confiar apenas no fluxo da consciência é um convite ao buraco na trama.

  • A Expansão: Você não precisa de uma planilha de Excel, mas precisa de um norte. Entender os pontos de virada (o Incidente Incitante, o Ponto de Não Retorno, o Clímax) permite que você plante pistas no início que florescerão no final. Sem estrutura, seu mundo épico se torna uma sucessão de eventos aleatórios.
  • A Chave: A estrutura é o esqueleto; a sua imaginação é a carne. Um não vive sem o outro.

7. O Consumo Passivo (O Leitor que não Disseca)

Ler mil livros de fantasia não te torna um escritor, assim como olhar mil cirurgias não te torna um médico. O erro é consumir a história apenas pelo prazer, sem entender a engenharia por trás do texto.

  • A Expansão: Você precisa ler com um bisturi na mão. Por que este capítulo terminou aqui? Como o autor introduziu aquele elemento de worldbuilding sem parecer forçado? Por que esse diálogo flui e o seu parece travado? Analise os clássicos e os contemporâneos para roubar as ferramentas, não as ideias.
  • A Chave: Deixe de ser apenas um fã e torne-se um estudante da técnica.

Conclusão

A fantasia não é um gênero para escapar da realidade, mas para refleti-la sob uma luz mais intensa. Evitar esses erros não vai tirar a “mágica” do seu processo; pelo contrário, vai dar à sua imaginação o suporte necessário para que ela alcance voos muito mais altos e, acima de tudo, críveis.

Leia também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *